Óctuplo passo de Buda rumo a perfeição

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Óctuplo Passo de Budha

O Caminho da Iluminação do Óctuplo Passo de Budha

O caminho óctuplo (sânsc. ashtanga-marga) é o conjunto de atitudes que levam à extinção completa do sofrimento. Como o nome já indica, o caminho é dividido em oito partes:

Sabedoria
(prajna)

1. Visão correta (samyak-drishti)
2. Intenção correta (samyak-samkalpa)

Ética
(shila)

3. Fala correta (samyak-vach)
4. Ação correta (samyak-karmata)
5. Meio de vida correto (samyak-ajiva)

Concentração
(samadhi)

6. Esforço correto (samyak-vyayama)
7. Atenção correta (samyak-smiriti)
8. Concentração correta (samyak-samadhi)

Para atingir a liberação do samsara, deve-se aperfeiçoar os três treinamentos superiores: a ética, a concentração meditativa e a sabedoria. De certo modo, o mais importante destes é a sabedoria da vacuidade; quando compreendemos o vazio (natureza não-inerente do eu e dos fenômenos), são diretamente eliminadas as formas infinitas da delusão, que surgem do apego. Porém, para o treinamento da sabedoria se tornar maduro e forte, deve-se primeiro desenvolver e suportar a concentração; e para desenvolver e suportar a concentração, deve-se cultivar o treinamento na ética, que acalma a mente e fornece uma atmosfera condutiva à meditação. Quando todos os três treinamentos superiores são praticados e levados à perfeição, a liberação do samsara é definitiva.

(Dalai Lama, The Path to Enlightenment)

O nobre caminho óctuplo oferece um compreensivo guia prático para o desenvolvimento das qualidades e habilidades benéficas no coração humano, que devem ser cultivadas para levar o praticante à meta final, a liberdade e felicidade supremas do nirvana. (…) O progresso pelo caminho não permite uma simples trajetória linear. Ao invés disso, o desenvolvimento de cada aspecto do nobre caminho óctuplo encoraja o refinamento e fortalecimento dos outros [aspectos], conduzindo o praticante cada vez mais à frente no espiral ascendente da maturidade espiritual que culmina no despertar.

(John Bullit, What is Theravada Buddhism?)

É possível abandonar a esperança fundamental de que existe um “eu” melhor que um dia surgirá. Não podemos simplesmente passar por cima de nós mesmos, como se não estivéssemos ali. É melhor olhar diretamente para nossas esperanças e medos. Então, surge uma espécie de confiança em nossa sanidade básica. É aqui que entra a renúncia — renúncia à esperança de que nossa experiência possa ser diferente, renúncia à esperança de que possamos ser melhores. As regras monásticas buddhistas que recomendam abandonar o álcool, o sexo e daí por diante, não querem dizer que esses hábitos sejam intrinsecamente maus ou imorais, mas que nós os utilizamos como babás. Nós os usamos para escapar, para conseguir alívio e distração. Quando renunciamos estamos, na verdade, desistindo da obstinada esperança de sermos salvos de nós mesmos. A renúncia é um ensinamento que nos estimula a investigar o que está acontecendo, sempre que nos agarramos a algo por não sermos salvos de nós mesmos. A renúncia é um ensinamento que nos estimula a investigar o que está acontecendo, sempre que nos agarramos a algo por não sermos capazes de enfrentar o que está surgindo.

(Pema Chödrön, Quando Tudo Se Desfaz

[O nirvana] não se trata de se fundir numa espécie de extinção, mas de descobrir o conhecimento último de si próprio. O objetivo não é sair do mundo; é deixar de estar subjugado por ele. O mundo não é mau em si, a nossa maneira de o perceber é que é errada. Um mestre buddhista disse: “Não são as aparências que te prendem, é o seu apego às aparências.” (…)

O objetivo do buddhismo visa a compreensão última do mundo fenomenal, tanto exterior como interior. Subtrair-se à realidade não resolve nada. O nirvana é exatamente o oposto da indiferença para com o mundo; é ter compaixão e amor infinito pela totalidade dos seres. Uma compaixão possante, porque nasce da sabedoria, da compreensão de que cada ser possui intrinsecamente a natureza de Buddha, e porque esta compaixão não se limita a alguns seres, como é o caso do amor no seu sentido habitual. A única coisa de que nos separamos é do apego pueril e egocêntrico aos infindáveis fascínios dos prazeres, da posse, reputação etc. (…) [A] finalidade é deixar de estar sujeito ao mundo dos sentidos, de não sofrer mais essa sujeição, como uma borboleta que, atraída pela chama, mergulha nela e morre. Na verdade, aquele que está livre de todo o apego pode usufruir da beleza do mundo e dos seres, e regressar ao próprio seio deste mundo, sem ser o joguete das emoções negativas, e aí desenvolver uma compaixão ilimitada.

(Citado por Matthieu Ricard em Le Moine et le Philosophe)

Prajna, a sabedoria

1. Visão correta (sânsc. samyak-drishti): o conhecimento das quatro verdades nobres, da interdependência etc. constituem a visão correta da realidade.
2. Intenção correta (sânsc. samyak-samkalpa): é a atitude de renunciar às atitudes negativas — como a luxúria, a má vontade, a crueldade, o apego — e, em seu lugar, cultivar a bondade e a não-agressão.

Shila, a ética

3. Fala correta (sânsc. samyak-vach): não se deve mentir, difamar, falar rudemente ou tagarelar, mas falar sim de maneira honesta, harmoniosa, reconfortante e significativa.
4. Ação correta (sânsc. samyak-karmata): não matar, não roubar, não ter má conduta sexual, não tomar drogas ou tóxicos, etc.
5. Meio de vida correto (sânsc. samyak-ajiva): o meio de vida deve seguir os preceitos citados anteriormente, ou seja, não deve ser prejudicial aos outros seres.

Samadhi, a concentração

6. Esforço correto (sânsc. samyak-vyayama): não se deve viver de modo negativo ou repetir os erros da passado, e sim manter as atitudes positivas e desenvolvê-las cada vez mais .
7. Atenção correta (sânsc. samyak-smiriti): é a contemplação do corpo, dos sentimentos, da mente dos fenômenos.
8. Concentração correta (sânsc. samyak-samadhi): é a meditação praticada com o esforço correto e com a atenção correta.

A essência do ensinamento buddhista pode ser resumido em dois princípios: as quatro verdades nobres e o nobre caminho óctuplo. O primeiro aborda o lado da doutrina e a primeira resposta que provoca é o entendimento; o segundo aborda o lado da disciplina, no sentido mais amplo desta palavra, e seu objetivo fundamental é a prática. Na estrutura do ensinamento, estes dois princípios estão juntos em uma indivisível unidade chamada Dharma-vinaya (páli Dhamma-vinaya), a doutrina – disciplina, ou de forma resumida, o Dharma (páli Dhamma). A unidade interna do Dharma é garantida pelo fato que a última das quatro verdades nobres, verdade do caminho, é o nobre caminho óctuplo, enquanto que o primeiro fator deste, a visão correta, é o entendimento das quatro verdades nobres. Assim, os dois princípios se penetram e se incluem, um ao outro — a fórmula das quatro verdades nobre contendo o nobre caminho óctuplo e este contendo as quatro verdades nobres.

Dada esta unidade integral, seria sem sentido colocar a questão de qual dos dois aspectos do Dharma teria maior valor, a doutrina ou o caminho. Entretanto, se fizéssemos tal pergunta, a resposta teria que ser o caminho. O caminho clama primazia porque é precisamente ele que traz o ensinamento à vida. O caminho traduz o Dharma de uma coleção de abstratas fórmulas em um contínuo desvelar da verdade. Ele dá saída ao problema do sofrimento, onde o ensinamento se inicia. E ele faz a meta do ensinamento, a liberação do sofrimento, acessível a nós, e é através dela que toma seu significado autêntico.

Seguir o nobre caminho óctuplo é mais uma questão de prática do que de conhecimento intelectual, mas para se aplicar o caminho corretamente deve-se entendê-lo apropriadamente. De fato, o entendimento correto do caminho é em si mesmo uma parte da prática. É uma faceta da visão correta, o primeiro fator do caminho, o precursor e guia para o resto do caminho. Assim, apesar que um entusiasmo inicial possa sugerir que a função da compreensão intelectual deva ser colocada de lado como uma aborrecida distração, uma consideração madura revela ser na verdade essencial para o sucesso último do caminho. (…)

Os oito fatores do nobre caminho óctuplo não são estágios para serem seguidos em seqüência, um após o outro. Ao invés disso, eles podem ser mais habilmente descritos como componentes, comparáveis às fibras entrelaçadas de um único cabo que requer a contribuição de todas as fibras para resistência máxima. Com um certo grau de progresso, todos os oito fatores podem estar presentes simultaneamente, cada um ajudando os outros. Porém, até que esse ponto seja atingido, uma certa seqüência no desenvolvimento do caminho é inevitável. Do ponto de vista do treinamento prático, o caminho óctuplo divide-se em três grupos: [ética, concentração e sabedoria]. (…)

A ordem dos três treinamentos é determinada pela meta final e pela direção do caminho. Já que a meta final para a qual o caminho conduz, a libertação do sofrimento, em última instância depende da erradicação da ignorância, o clímax do caminho deve ser o treinamento diretamente oposto à ignorância. Este é o treinamento na sabedoria [prajna], destinado a despertar a faculdade de entendimento penetrativo que vê as coisas “como elas realmente são”. A sabedoria desenvolve-se por graus e até mesmo os mais fracos lampejos de insight pressupõem, como sua base, uma mente que esteja concentrada, livre de confusões e distração.

A concentração [samadhi], é adquirida por meio do treinamento em consciência elevada, a segunda divisão do caminho, que produz a calma e a serenidade necessárias para o desenvolvimento da sabedoria. Mas para que a mente seja unificada na concentração, um freio deve ser colocado nas disposições não-saudáveis que geralmente dominam sua atividade, uma vez que essas disposições dissipam o foco de atenção e a dispersa entre uma multidão de inquietações e preocupações. As disposições não-saudáveis continuam a dominar enquanto se permite que elas ganhem expressão através dos canais do corpo e da fala, como ações corporais e verbais. Conseqüentemente, no próprio começo do treinamento, é necessário restringir as faculdades da ação, para prevenir que elas se tornem instrumentos das impurezas. Essa tarefa é realizada pela primeira divisão do caminho, o treinamento na ética [shila].

Então o caminho desenvolve-se através de seus três estágios, com a ética como fundamento para a concentração, a concentração como fundamento para a sabedoria, e a sabedoria como instrumento direto para a obtenção da liberação.

Algumas vezes, a perplexidade surge a respeito de uma inconsistência aparente na combinação dos fatores do caminho e do treinamento triplo. A sabedoria — que inclui a visão correta e a intenção correta — é o último estágio no treinamento triplo, apesar dos seus fatores serem colocados no início do caminho ao invés do seu término, como poderia ser esperado de acordo com o princípio fundamental da consistência estrita. Porém, a seqüência dos fatores do caminho não é o resultado de um erro negligente, mas é determinada por uma consideração logística importante, a saber, que a visão correta e a intenção correta são, no início, um tipo preliminar, como o impulso para a entrada no treinamento triplo. A visão correta provê a perspectiva para a prática, a intenção correta o sentido de direção. Mas as duas não terminam nesse papel preparatório pois, quando a mente foi refinada pelo treinamento na ética e na concentração, ela chega a uma visão correta e intenção correta superiores, as quais formam o próprio treinamento na sabedoria suprema.

(Bhikkhu Bodhi, The Noble Eightfold Path)

Quanto à ética buddhista, é muito conhecido o grupo de cinco preceitos (sânsc. pancha-shila, páli pancha-sila): não matar; não roubar; não cometer adultério; não mentir ou falar de maneira imprópria; e não usar substâncias que perturbem a mente (dragas, cigarro, álcool etc).

Outro grupo, de dez preceitos (sânsc. dasha-kushala-karma-patha), inclui: não matar, mas proteger a vida; não roubar, mas praticar a generosidade; não cometer adultério, mas praticar a ética; não mentir, mas falar a verdade; não difamar, mas falar harmoniosamente; não falar de maneira rude, mas usar palavras reconfortantes; não tagarelar, mas falar com discrição e significado; não cobiçar, mas regozijar-se com a riqueza e as qualidades dos outros; não ter maldade, mas ter benevolência; não defender visões errôneas, mas cultivar as corretas.

Na escola Theravada, por exemplo, os leigos tomam oito preceitos (sânsc. ashta-shila, páli attha-sila) nos dia de quarto lua cheia e nova (páli Uposatha): não matar; não roubar; não ter qualquer atividade sexuais; não mentir ou falar de maneira imprópria; não tomar substâncias que perturbem a mente; não comer após o meio-dia; não dançar, cantar, ouvir música, ir a entretenimentos, vestir adereços, usar perfumes e cosméticos; e não deitar em camas altas ou dormitórios grandes e luxuosos.

Os monges noviços da escola Theravada fazem dez votos (sânsc. dasha-shila, páli dasa-sila) permanentes: não matar; não roubar; não ter qualquer atividade sexual; não usar a fala de maneira incorreta; não usar substâncias que perturbam a mente; não comer após o meio-dia; não dançar, cantar, ouvir música, ir a entretenimentos; não vestir adereços, usar perfumes e cosméticos; não deitar em camas altas ou dormitórios grandes ou luxuosos; e não aceitar ouro e prata (dinheiro). Ao receberem a ordenação completa, os monges theravadins fazem 227 votos; já em outras tradições, utiliza-se um sistema de 253 votos.

Como a vontade é por si mesma indeterminada, o Buddha prescreveu, em termos definitivos e lúcidos, os fatores de treinamento moral que devem ser completados para salvaguardar o progresso no caminho à iluminação. Estes fatores são uma parte essencial do treinamento e, quando implementados pela força da volição, se tornam um meio fundamental de purificação. Especialmente no contexto da prática meditativa, a tomada de preceitos previne a emergência de ações corrompidas, destrutivas ao propósito da disciplina meditativa. Ao seguir cuidadosamente as regras das condutas prescritas, estaremos evitando pelo menos as expressões mais grosseiras de cobiça, aversão e ilusão e, desta forma, não teremos que vivenciar os obstáculos da culpa, ansiedade de agitação que surgem na trilha de transgressões morais regulares.

Portanto, um preceito é, segundo a perspectiva buddhista, muito mais que uma proibição imposta à conduta vinda de fora. Cada preceito é uma expressão tangível de uma atitude mental correspondente. Ao trazer nossa conduta em harmonia com os preceitos, podemos nutrir a raiz de nossos esforços espirituais, a virtude. Quando a virtude é aprimorada, os estágios do caminho se desvelam espontaneamente através da lei da vida espiritual, culminando na perfeição do conhecimento e libertação serena.

(Bhikkhu Bodhi, Nourishing the Roots)

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Adi Barbosa é Master Coaching de Negócios com dupla certificação e Professional Coach in Business and Human Resources pela EPC, Practitioner em Programação Neurolinguística – PNL, Analista Comportamental DISC pela Solides, idealizador do método IDEIA e da ferramenta PSC, vem auxiliando empreendedores e advogados obterem resultados pela internet.